Quantos grandes artistas foram excluídos e quase impedidos de trabalhar por causa da industria cultural de mercado?

Escrito por Claudio Lins às 06h20
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A CASA DE DOMINGOS E PRISCILA

Outro dia eu e minha querida esposa fomos à casa de Domingos e Priscila. Não que sejamos amigos íntimos. Não que eles tenham nos convidado pessoalmente (apesar de o convite estar aberto a todos, no jornal). Mesmo assim fomos por empatia a eles, ou mesmo simpatia. Fomos pela curiosidade. Fomos porque outros nos incentivaram a ir. Fomos porque era perto de casa e porque não havia mais nada que devesse ser feito naquela noite que não visitar Domingos e Priscila.

Chegamos um pouquinho atrasados, mas entramos discretamente. Nossos anfitriões nos receberam muito bem. Além deles, alguns criados vieram nos recepcionar. Um deles tinha o dom da palavra, e outros três eram músicos (casal de sorte: não é fácil arranjar criados tão bem dotados assim hoje em dia). Haviam também outros convidados, mas eles também eram muito discretos e não falavam nada.

0 objetivo daquela tão inusitada reunião era que Domingos e Priscila queriam nos contar uma ou duas estórias escritas por um amigo deles, um tal Dostoievski, que já havia morrido fazia um tempo. Pela maneira com que eles se referiam a esse autor, nos pareceu ser um amigo muito querido e que eles conheceram muito bem.

As estórias, que já eram interessantes, ficavam extremamente deliciosas quando contadas por Domingos e Priscila, sempre apoiados por seus competentes criados (casal de sorte mesmo!). Foi uma noite muito agradável : rimos, tomamos vodca, nos emocionamos.

Ao final, aplaudimos. E só.

Assim me parece o teatro de Domingos Oliveira e Priscila Rozembaum: a casa deles. Não é um teatro pra agradar a crítica. Não é também para conquistar o público. Não é pra inovar a linguagem teatral nem pra cristalizar um estilo próprio. Não é feito com o intuito de ganhar prêmios, apesar de eventualmente ser digno deles. Não é feito nem pra ganhar dinheiro (mas quando isso ocorre , tenho certeza de que eles ficam muito contentes). 0 teatro de Domingos Oliveira e Priscila Rozembaum é um teatro totalmente despretensioso. Eu ouso dizer que é um teatro puro, essencial, naturalmente alheio (ou não) as modas. por isso mesmo é tão agradável e, ao mesmo tempo, tão importante de ser assistido.

Atualmente a casa de Domingos e Priscila fica no teatro do Planetário da Gávea. A Prefeitura do Rio de Janeiro cedeu o espaço pra eles, e ainda dá uma ajuda de custo bem legal, que é pra eles manterem a casa limpa, os criados pagos em dia, e o palco abastecido com o que lhes convier.

E é assim que a arte deve ser feita. Com tranqüilidade, sem quaisquer compromissos que não com ela própria. Parabéns Prefeitura do Rio de Janeiro. Parabéns Domingos e Priscila, pela bela casa.

 

Rio, 15/08/1999

Escrito por Claudio Lins às 06h17
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REDENÇÃO PARA LENY

A cantora Leny Andrade morreu.

0 velório foi no Teatro Rival, e varou a noite. Centenas de fãs incluindo vários artistas, fizeram uma vigília na Cinelândia até o dia amanhecer, quando seu corpo foi levado em cortejo até o cemitério São João Batista. Entre lágrimas, seus fãs cantaram seus maiores sucessos durante todo o trajeto, e o coro emocionado resistiu até meia hora depois do enterro. Depois foram todos para suas casas, tristes.

Em Nova lorque, Liza Minelli organizou um tributo a Leny Andrade, com a participação de alguns admiradores da nossa cantora: Celine Dion, Sting, Quincy Jones, Herbie Hancock, AI Jarreau, George Benson e Erika Badu participaram do show. A Bjork também foi, mas não conseguiu subir ao palco, tamanha era sua consternação.

Os festivais de jazz da Europa e EUA fizeram um minuto de silêncio em respeito ao falecimento de Leny. 0 Montreaux Jazz Festival anunciou que vai dedicar uma noite de sua próxima edição a ela. A cadeia de bares Bluenote está de luto, e as de Tóquio e Osaka, no Japão, criaram o Dia de Leny Andrade.

Aqui no Brasil, Leny foi notícia de primeira página (apesar de concordar parcialmente com Caetano Veloso, devo admitir que a imprensa ainda é o melhor amigo do artista) em todos os principais jornais e revistas do país durante uma semana, com direito a cadernos especiais, contando a sua luminosa trajetória. Os telejornais fizeram o mesmo. Os programas musicais e de auditório renderam?Ihe homenagens e lamentaram "terem tão poucas imagens de arquivo e entrevistas com ela" Em meio a uma guerra entre as gravadoras multinacionais, seus discos foram todos reeditados em CD, e venderam mais em um mês do que em toda a sua vida. A maior parte desses compradores nunca tinha ouvido a Leny cantar até então. Muitos nem sequer tinham ouvido falar dela. Mas todos agora queriam saber, ainda que tardiamente, quem era aquela mulher que, da noite pro dia, invadia suas televisões, seus rádios, suas vidas, com o título internacional de "UMA DAS MAIORES CANTORAS DE TODOS OS TEMpoS".

Agora, o melhor de tudo isso é que Leny não morreu. Está mais viva do que nunca, como pude conferir no seu úItimo show .

Foi no Teatro Rival, e varou a noite. Vários fãs, incluindo eu e alguns artistas, chegamos com antecedência na Cinelândia para não perdermos um segundo daquele evento. Entre lágrimas, cantamos seus maiores sucessos durante todo o show, e o coro emocionado resistiu até meia hora depois, para pegarmos autógrafos. Depois, fomos todos para nossas casas, felizes da vida.

Nova lorque é a segunda casa de Leny. Lá, ela é respeitada e adorada por muitos artistas consagrados internacionalmente (como ela). Todos os anos é convidada para tocar em inúmeros festivais de jazz e casas noturnas do mundo inteiro. E, como ela mesma diz, sempre cantando música brasileira, sempre em português. pois é, não pensem vocês que é só futebol e Carnaval que contribuem pare a boa imagem do Brasil lá fora.

Enquanto isso, no Brasil ... bem , a estória aqui é um pouco incoerente. Onde estão as primeiras páginas com fotos da Leny? Em que rádio podemos ouvir suas maravilhosas interpretações? Em que programa de televisão poderemos conhecê?la melhor? por que as grandes gravadoras não querem ter uma artista do seu porte? Afinal de contas, o que esta gente, está esperando pra colocar a Leny Andrade no posto de Estrela Maior da nossa música? Como urubus preguiçosos esperando sobras de carniça, esperam um motivo que a faça virar, da noite pro dia, uma heroína nacional ? e possivelmente um fenômeno de vendas sem que eles precisem mover um dedo para isso.

A pior conseqüência desse tipo de política cultural atinge muito menos a própria Leny e muito mais os apreciadores de música, os reais consumidores, que ficam sem acesso ao seu maravilhoso talento. E que tristeza é passar uma vida inteira sem assistir a um show dela. Quem nunca foi a um show da Leny não conhece nem metade das emoções que a música pode provocar no ser humano. É viver uma vida inteira enganado, achando que tudo de melhor está na televisão, no rádio e nos jornais (senão, por que estariam lá?).

Mas olha: como eu disse, a Leny está aí, no auge da sua forma e com muita estrada pela frente. Na minha "nada humilde" opinião, ela é a maior cantora que temos atualmente. Então, por que não aprender com ela? Está mais do que na hora de nos rendermos ao talento de Leny Andrade. Não só por ela, mas por nós mesmos. Para que possamos aproveitar ao máximo o fato de termos entre nós UMA DAS MAIORES CANTORAS DE TODOS OS TEMpoS.

Rio, 13/08/1999



Escrito por Claudio Lins às 06h17
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Bom, vou começar esse blog publicando idéias e textos antigos... antes tarde do que nunca! Os próximos três são do site antigo, que logo será substituído por uma novo, mais simples e atualizado.

 

AS CICATRIZES DAS CONCHAS

Você sabia que as conchas têm cicatrizes? Claro, nem todas. Mas muitas têm, causadas por seus predadores. Nenhum ser se alimenta de conchas, mas dos moluscos que moram dentro delas. Eventualmente algum predador, como caranguejos ou peixes, tentam alcançar o molusco dentro de sua concha. Em grande parte das vezes sua missão é cumprida. Em outras, o predador desiste por algum grau de dificuldade que a concha possua em sua arquitetura. Assim são formadas as cicatrizes: ou pelos estragos causados pelos predadores ou (e ai está o grande barato) pela reforma, pela reconstrução que o molusco emprega na sua concha. Essa luta existe a milhões - eu disse milhões de anos. E o interessante é que não só os predadores vêm evoluindo para melhor servir-se dos moluscos como estes também revolucionam a arquitetura de suas conchas para se proteger melhor.

Você sabia que os corações têm cicatrizes? Claro, nem todos. Mas muitos têm, causados por seus amantes. Nenhum ser se alimenta de corações, mas do amor que mora dentro deles. Eventualmente algum amante, como homens e mulheres apaixonados, tentam alcançar o amor dentro de um coração. Em grande parte das vezes sua missão é cumprida. Em outras, o amante desiste por algum grau de dificuldade que o coração possua em sua arquitetura. Assim são formadas as cicatrizes: ou pelos estragos causados pelos amantes ou (e ai está o grande barato) pela reforma, pela reconstrução que o amor emprega no seu coração. Essa luta existe a milhões - eu disse milhões de anos. E o interessante é que não só os amantes vêm evoluindo para melhor servir-se do amor como este também revoluciona a arquitetura de seus corações para se proteger melhor.

 

Rio, 13/08/1999



Escrito por Claudio Lins às 06h16
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Bom dia, mundo.

O Blog está nascendo nesse momento. E agora? Será que ele vai ficar vazio pro resto da vida? Será que virão idéias para salvá-lo da inércia? Será que as minhas idéias vão mudar o mundo para melhor, ou serão apenas sonhos? Será que as minhas filosofias, de tão ingênuas, ficarão restritas ao meu quintal? Ou será que o meu quintal vai crescer até ficar do tamanho do mundo?

Bom dia, mundo.



Escrito por Claudio Lins às 06h08
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13/11/2005 a 19/11/2005


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